SERVIR AS PESSOAS OU DAS PESSOAS?

 

Para que não acabemos todos enrolados em uma realidade praticamente sem fios, precisamos negociar alguns tratados para seguir em frente.

Como um festival que se tornou desejado globalmente por antecipar as maiores tendências em tecnologia, e ser o palco de lançamento de empresas que viriam a ser players dominantes do setor, se torna essencialmente um dos eventos mais importantes para se discutir o futuro da sociedade e do mundo como um lugar melhor para as pessoas viverem?

A resposta envolve fundamentalmente que o papel das empresas de tecnologia seja revisto, lembrando as origens dessa nossa necessidade de nos conectarmos em escala e velocidade cada vez maiores. O avanço na automação de serviços e a sofisticação do consumo demandada pelos bem-sucedidos no mercado de trabalho estão criando gaps gigantescos entre as classes sociais e deixando uma legião de excluídos pelo caminho — assunto já tratado neste mesmo espaço, duas semanas atrás. Esse filme o mundo já viu antes, em outras revoluções que provocaram mudanças significativas no modo como geramos riqueza e a distribuímos — e é nessa parte do processo que as coisas costumam emperrar. Toda essa polarização, no fim das contas, tem muito a ver com a divisão do bolo. Uns acreditam na construção de diálogos, outros, na de muros — cada um na sua. Boa parte do resto é retórica e massa de manobra.

Outro ponto importante, como bem lembra o diretor executivo da M&M Consulting, Pyr Marcondes, é que chegamos a um ponto em que as bases da revolução tecnológica que está transformando o modo como vivemos e nos relacionamos já estão fundamentadas e serão potencializadas com a iminente chegada ao mercado das redes 5G.

Agora, para que não acabemos todos enrolados em uma realidade sem fios, precisamos de alguns tratos para seguir em frente. Para continuarmos no controle. Nós, humanos. Não as corporações. Nem os robôs — especialmente aqueles que não enxergamos, mas já são capazes de monitorar literalmente cada passo dado. O especialista em teoria da mídia Douglas Rushkoff, que acabou se apresentando no SXSW via teleconferência, desconfia que o trem começou a descarrilhar quando a indústria da tecnologia parou de servir as pessoas para se servir das pessoas, transformando isso em seu core business. Tal ideia ecoou em outras mesas pelas diversas arenas que recebem os painéis e sessões do festival.

Em um ambiente que tende a ficar ainda mais complexo, o South by Southwest escancarou de vez, em 2019, as portas que já havia entreaberto nos últimos anos para o debate social. Se ano passado o empreendedor Elon Musk, CEO da Tesla e da Space X, foi a grande estrela do evento, desta vez os holofotes voltaram-se todos para o “time humano” — para usar uma expressão cunhada por Rushkoff. Críticos do excesso de poder nas mãos das grandes empresas da nova economia, como Susan Fowler, a engenheira de software que escancarou a política de assédio do Uber, foram aplaudidos de pé, assim como grandes ícones do trabalho colaborativo, como a psicoterapeuta belga Esther Perel. Possíveis candidatos na eleição presidencial dos Estados Unidos no ano que vem, como o fundador da Starbucks, Howard Schultz, e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, também lotaram as salas nas quais se apresentaram e levaram o SXSW para o noticiário nacional norte-americano.

Por fim, ainda respondendo à pergunta lançada no primeiro parágrafo, entender esse espírito do tempo é crucial tanto para as marcas que almejam ter alguma relevância na próxima década quanto para os gestores que precisam ter a influência necessária sobre seus pares e equipes, a fim de liderar tais transformações.

Fonte:  Jonas Furtado - Diretor de conteúdo do Grupo Meio & Mensagem
                                  19 de março de 2019 - 8h21

 

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